por Nathalia Marangoni em 1 Novembro, 2017
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Degustar vinhos como um profissional é uma forma excelente de aproveitar o verão na África do Sul em toda a sua magnitude, na região das Vinhas do Cabo — além de, é claro, curtir as premiadas praias de Cape Town pelo caminho ou até mesmo encaixar uma viagem de carro pela Garden Route.

Franschhoek Valley, nas Vinhas do Cabo

Franschhoek Valley, nas Vinhas do Cabo

Em destinos como Franchhoek e Stellenbosch, por exemplo, você vai poder tomar sol enquanto aprecia vistas espetaculares de plantações de uva cercadas por desfiladeiros de montanha, tendo em mãos uma taça de algum dos excelentes vinhos sul-africanos.

Como diria o novelista Robert Louis Stevenson, um bom vinho é uma poesia engarrafada. Ao visitar as Vinhas do Cabo, você comprovará o dito. Degustar vinhos não é uma atividade restrita a connoisseurs e o guia a seguir visa fornecer informações essenciais para garantir que a sua experiência de degustação seja inesquecível. Taça em mãos?

1. O lugar ideal

Céu rosado nas Vinhas do Cabo

É praticamente impossível degustar, verdadeiramente, um vinho quando você está em uma sala inundada de fragrâncias e odores. Para ter uma noção verdadeira a respeito de um vinho particular, é importante que não haja outros fatores que influenciem seu gosto. Portanto, um local ideal para degustação de vinhos deve ter as seguintes características:

  • Ser bem iluminado para garantir que você possa ver a coloração correta do vinho
  • Não possuir odores que podem te distrair, garantindo que você possa sentir o aroma do vinho em sua totalidade
  • Deve fornecer taças limpas a cada vinho degustado
  • Deve oferecer palette cleanses, ou seja, alimentos ou bebidas de sabor neutro que removem resíduos da língua permitindo que um novo vinho seja degustado

2. A aparência

Vinho com vinhedos ao fundo

Esta etapa envolve o uso de seus olhos para verificar a aparência do vinho. Uma taça é normalmente preenchida com cerca de 60 ml durante uma experiência de degustação, permitindo que você incline a taça para avaliar a bebida. Observe o vinho contra um fundo branco e analise sua aparência levando em conta as seguintes categorias:

  • Claridade: o vinho lhe parece opaco, turvo ou límpido?
  • Intensidade: você descreveria o vinho como forte, intenso, pálido ou fraco?
  • Cor: caso o vinho seja tinto, ele lhe parece vermelho-rubi (cor dos vinhos com algum tempo de envelhecimento), vermelho-vivo (cor de certos vinhos jovens), vermelho-violáceo ou vermelho-tijolo, por exemplo? Caso seja branco, analise se ele é incolor ou tem uma cor amarela pálida? Caso seja mais amarelado, analise seu tom é levemente esverdeado, palhoso ou tem reflexos dourados.
  • Lágrimas (gotículas no interior da taça): uma maior densidade de gotículas indica que o vinho tem alto teor alcoólico, e as lágrimas que fluem lentamente dentro da taça são sinais de que o vinho é mais doce.

Nota: Sedimentos no fundo da taça de vinho não costumam ser culpa do um produtor da bebida – o vinho provavelmente é antigo.

3: O aroma

Agora é hora de degustar vinhos como um profissional – ou pelo menos, aparentar ser um – ao sentir o aroma da bebida. Segure a base da taça e gire-a delicadamente em movimentos circulares, liberando seus aromas, antes de respirar sua fragrância. O olfato exerce grande importância na arte da degustação, justamente porque, com tempo e prática, é possível decifrar mistérios impressionantes sobre o lugar em que o vinho foi produzido e até mesmo os tipos de uvas utilizadas no processo. Então, comece a praticar agora! A Revista Adega recomenda que, depois de sentir o aroma da bebida, aspectos a seguir devem ser levados em conta:

  • Condição: Como é o aroma? O líquido cheira bem ou de forma desagradável?
  • Intensidade ou ataque aromático: a quantidade de aroma e seu impacto em nossas narinas.
  • Complexidade: a variedade de cheiros ou diferentes essências que podem ser reconhecidas durante a degustação.

4: O sabor

Uvas nas mãos de um produtor

A melhor parte finalmente chegou: saborear um delicioso vinho. O truque deste passo é começar por tipos únicos de uva, para que você se familiarize com seus traços individuais. Tome pequenos goles, cobrindo a língua, cuspa o vinho (ou, faça como eu, ignore esta parte) e respire. Julgue o vinho nas seguintes categorias:

  • Doçura: O vinho é seco, meio-seco, médio ou doce?
  • Corpo: Nada mais, nada menos do que a densidade que o vinho apresenta ao ser provado: você o descrevia como ralo, leve, de médio corpo, encorpado ou pesado?
  • Acidez: o vinho tem alta acidez e dá água na boca? É picante, refrescante ou sem graça?
  • Sabor: O vinho tem notas de frutas, especiarias, flores, vegetais ou madeiras
  • Comprimento: Depois de bebericar o vinho e engoli-lo, seu sabor continua na boca? Caso o sabor persista ou mesmo se acentue depois de alguns instantes, é um indicativo de que o vinho é de alta qualidade.

5: Revisão geral

Agora é hora de combinar todas as suas observações e avaliações das etapas 1 a 4, extraindo conclusões sobre a aparência, cheiro e gosto para avaliar se o vinho tem um bom equilíbrio, ou seja, não há um aspecto dominante, bom comprimento (no sentido de o sabor durar algum tempo na boca), complexidade adequada (quantidade de aromas e sabores) e sua intensidade.

5.1: Pontuação

Rolhas de cortiça

Uma pontuação máxima de 20 pontos é geralmente dada aos vinhos, com pontos de cada etapa compondo o total. Um máximo de 3 pontos é atribuído à aparência, 7 à qualidade olfativa e 10 para a qualidade do sabor. Os vinhos podem receber as seguintes pontações com base nas classifcações:

  • Abaixo de 8 pontos: Pobre
  • Entre 11 e 12 pontos: Razoável, não acredite nas pessoas quando elas lhe dizem que é um bom vinho (2 estrelas)
  • Entre 13 e 14 pontos: Moderado, um vinho adequado para ser desfrutado em casa (3 estrelas)
  • Entre 15 e 16 pontos: Bom, você poderia pedir este vinho, com segurança, em algum restaurante (4 estrelas)
  • Entre 17 e 20 pontos: Excelência, este vinho é de alta qualidade (5 estrelas)

Falhas do vinho — menos de 8 pontos

  • Gosto de rolha: pode acontecer porque a garrafa não foi aberta corretamente, a rolha é antiga e difícil de remover ou a rolha foi infectada com tricloranisole (TCA), dando ao vinho um dor e sabor desagradáveis (o chamado efeito bouchonée).
  • Oxidação: o vinho apresenta gosto de xerez e modificação na cor devido ao contato excessivo com oxigênio.
  • Vinho cozido: o vinho pode ter sido armazenado em temperaturas muito altas, apresentando uma textura menos encorpada.
Vinho rosé sendo servido em uma taça, em uma mesa de frios

Para a produção deste artigo, consultamos informações do site Confraria do vinho de Bento Gonçalves, compartilhadas pelo Dr. Luiz Antenor Rizzon, PhD em Enologia pela Universidade de Bordeaux, França e pesquisador da Embrapa Uva e Vinho. Caso tenha interesse em se aprofundar em vinhos, confira a lista de livros didáticos recomendados pela Revista Adega para enófilos.