por Nathalia Marangoni em 6 Julho, 2018
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Fundado em 2017, o museu Zeitz MOCAA – Zeitz Museum of Contemporary Art Africa – é certamente uma atração imperdível na Cidade do Cabo. Situado na vibrante região de V&A Waterfront – a “meca das compras” da cidade – o museu foi, no passado, uma propriedade destinada ao armazenamento de materiais granulosos, como cereais, o que explica porque sua arquitetura é tão engenhosa, com silos que se elevam até o terraço.

Zeitz Mocaa, Cidade do Cabo

Parte externa do Zeitz Mocaa vista a partir de seu terraço.

Com nove andares, dentro os quais sete são dedicados a exibições,  o museu tem como foco coletar, preservar, pesquisar e exibir arte do século XXI da África e de sua diáspora – palavra que descreve o êxodo de pessoas de determinada origem, neste caso, de origem africana, e seus descendentes por diversas partes do mundo, incluindo lugares como o Brasil e Estados Unidos).

"Hanging Piece" de Kendell Geers

“Hanging Piece” de Kendell Geers. O artista sul-africano costuma utilizar garrafas quebradas, tijolos, arame farpado, cercas elétricas e outros objetos do dia a dia para criar uma narrativa maior.

Estivemos no Zeitz MOCAA recentemente e trazemos a você alguns detalhes de suas exposições e motivos pelos quais você deveria visitá-lo durate sua passagem na Cidade do Cabo, especialmente nos meses de inverno, quando a temperatura mais fria e o vento convidam seus visitantes e moradores a explorarem seus interiores.

1. Arquitetura

Arquitetura de Zeitz Mocaa, na Cidade do Cabo, é uma "exposição" a parte

Arquitetura de Zeitz MOCAA é uma “exposição” a parte

Como mencionamos acima, antes de tornar-se um museu, a propriedade que é hoje o Zeitz Mocaa era destinada à armazenação de grãos, possuindo 42 silos. O museu manteve três deles e estendeu sua altura, de forma a acomodar 2 elevadores e uma escadaria central. Os silos possuem 23 metros de altura e o prédio conta com 11 andares. Estabelecido em 1921, a propriedade foi a torre mais alta da África Subsaariana por quase meio século.

2. Esculturas e instalações no terraço

Alfabeto Cósmico, trabalho artístico de El Loco - Zeitz Mocaa

Caso visto de baixo, a partir de dentro do museu, “Alfabeto Cómisco” de El Loco parece um manto de estrelas. Foto: Site de Zeitz MOCAA

No terraço de Zeitz MOCAA, onde começamos nosso passeio, é possível conhecer a exposição “Now and then”, um diálogo entre artistas históricos e novatos. Um dos aspectos mais interessantes do “sculpture garden” de Zeitz MOCAA – um jardim ou parque dedicado à exposição de esculturas – é que, além de suas instalações, parte de seu solo é feito de vidro e coberto por um “Alfabeto Cósmico”, criação do artista El Loco, originalmente de Togo.

Essencialmente, o alfabeto não possui um significado; o objetivo de El Loco, que infelizmente morreu um mês antes da instalação ficar pronta, era desenvolver um linguagem universal que transcendesse barreiras raciais e culturais que proíbem a livre associação e a comunicação. O “Alfabeto Cósmico”  consiste de símbolos retirados de seu trabalhos anteriores. Caso você não tenha medo de altura, chegue mais perto do chão de vidro e olhe através dele. Vistas da Cidade do Cabo também tornam o terraço uma área obrigatória a ser visitada no museu.

3. Exposições

Com tantas exposições temporárias e permanentes espalhadas por mais de 100 galerias no museu, fica difícil escolher quais destacar. Durante nossa visita ao Zeitz Mocaa em junho de 2018, tivemos a oportunidade de conhecer os trabalhos de artistas como Kudzanai Chiurai (Zimbábue), Lungiswa Gqunta (África do Sul) e Ruby Swinney (África do Sul) e, com a companhia da curadora Julia Joan Kabat, tivemos saber informações sobre as obras e seus criadores.

Exposição "Human Nature", Zeitz Mocaa

“Human Nature” é uma exposição individual que apresenta um extenso corpo de pinturas etéreas criadas por Ruby Swinney, artista natural da Cidade do Cabo.

“Human Nature”, de Ruby Swinney, por exemplo, leva os visitantes a uma jornada de auto reflexão que navega por terrenos – divididos em temáticas – como “Província”, “Paisagem Urbana”, “Água”, “Natureza” e “Jardim”. Cada uma das temáticas retrata o desejo humano de estabelecer seu lugar na natureza, um espaço imprevisível e indomável que influencia nosso estado emocional, com o poder de nos tornar vulneráveis. As pinturas de Swinney parecem sonhos saídos da realidade e estimulam a introspecção.

Captura do vídeo "Yieza", de Kudzanai Chiurai. Foto: Site do Zeitz Mocaa

Captura do vídeo “Yieza”, de Kudzanai Chiurai. Foto: Site do Zeitz Mocaa

Enquanto isso, o trabalho multifacetado e multidisciplinar de Kudzanai Chiurai apresenta-se sob a forma de desenhos, pinturas, esculturas e fotografias, todas com uma forte narrativa polítca, econômica e social, poderosas ao questionar o colonialismo e a independência de países africanos até o dias de hoje. Uma de suas obras mais contundentes é “Yyeza”, um trabalho multimídia – sob a forma de um vídeo caótico de 11 minutos – que recria o quadro de Leonardo da Vinci, “A Última Ceia”, abordando temas como corrupção, religião e xenofobia a partir de arquétipos da identidade africana.

"Divider", de Lungiswa Gqunta, explora os efeitos do álcool nas dinâmicas familiares sul-africanas

“Divider”, bem como outros trabalhos de Lungiswa Gqunta, explora os efeitos do álcool em dinâmicas familiares opressivas

Lungiswa Gqunta, da cidade sul-africana de Port Elizabeth, brinca com materiais domésticos como roupas de cama, garrafas de vidro e caixinhas de fósforo para tecer narrativas sociais sobre a vida da população negra do país. Em “Divider”, as garrafas de cerveja vazias, da marca sul-africana Black Label, suspensas em cordões vermelhos, refletem a presença do álcool em dinâmicas de relacionamentos familiares opressivos, nas quais o abuso da substância é mantido em segredo, ainda que as garrafas vazias digam muito, sem nada dizer.

Nota: Recomendamos que você realize uma visita guiada ao museu, na companhia de um curador ou curadora. Saber cada pedacinho da história de cada exposição e como foi realizado o processo de curadoria faz toda a diferença e você sairá de lá com muito a refletir.

4. Gastronomia nas alturas

Interiores de Zeitz Mocaa Food, no sexto andar do museu

Interiores de Zeitz Mocaa Food, no sexto andar do museu, possuem vistas desconcertantes da cidade

Situado no sexto andar do museu, Zeitz MOCAA Food oferece aos visitantes a chance de experimentar pratos típicos sul-africanos de uma maneira reimaginada, em versões inventivas e muito saborosas. Durante nossa visita, tivemos oportunidade não apenas desfrutar de vistas gratificantes da Cidade do Cabo, como degustar iguarias do novo menu do restaurante e provar um prato principal e sobremesa. Um vinho Viognier, da vinícola sul-africana Lourensford, foi recomendado pela equipe do restaurante e tornou-se o acompanhamento perfeito para todas as iguarias que provamos.

Nhoque no carvão, um dos pratos servidos no Zeitz Mocaa Food.

Nhoque com manteiga e sálvia no carvão, um dos pratos servidos no Zeitz Mocaa Food.


De passagem pela Cidade do Cabo e quer conhecer as exposições do Zeitz MOCAA? Confira seus horários de funcionamento abaixo e planeje seu dia.

Horário de funcionamento:
Quarta à segunda-feira: 10h – 18h
Primeira sexta-feira do mês: 10h – 21h
Fechado às terças-feiras

Preço do ingresso por adulto:
180 rands sul-africanos (menores de 18 anos têm entrada gratuita)

Contato:
+27 (0)87 350 4777
info@zeitzmocaa.museum